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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O Tempo

Por mais que queiramos fazer os jovens entenderem a brevidade do tempo e aprender a lidarem com ele, esse é um esforço um tanto quanto inglório. Há coisas que só o tempo traz, e a própria percepção de sua passagem só é percebida quando estamos há algum tempo nesse mundo. O jovem que se pega pensando na atividade do tempo tem uma dimensão diferente da que têm seus pais e avós. Para o jovem rapaz, observar a ação do tempo é antes motivo de alegria que de reflexão. Ele notará seus amigos que eram tenros e agora são jovens fortes e que conseguem realizar grandes feitos. Verá com satisfação as meninas antes desajeitadas se transformarem em dignas herdeiras de Eva, assim como as pequenas princesas alcançarem a perfeição. Ele se alegrará da liberdade alcançada, do vento no rosto e nos cabelos durante as corridas de aventura, do nascer e do pôr-do-sol, dos amores juvenis, do coração jovem que pulsa e do mundo que ora se assemelha a um animal bravio destinado a ser montado. Mas essa é apenas uma faceta do tempo...
 
Já estou na idade em que se começa a repensar nosso conceito de tempo. A idade em que deixamos de apreciar a construção das coisas para nos concentrarmos em como definham lentamente. Em que o auge se converte em lembrança, e o declínio é a verdade que se revela. Peguei-me pensando nessas coisas ao reconhecer, em uma rede social, a foto de uma antiga conhecida da adolescência. A bem da verdade, espantei-me. Seria difícil ter reação diferente ao se dar conta de como uma pessoa tão bela sofreu imensamente com o aglutinar dos anos, perdendo toda a aura que a cercava. Não sei se tal mudança se deu por motivo de doença ou outra vicissitude da vida. O fato é que a pessoa cuja foto observava abismado era agora outra. Se contasse, não acreditariam em como já foi admirada e disputada. Mas o fato é que foi.
 
É o tempo quem vai sepultando fatos, ideias, convicções, feitos, erros, equívocos, glória, justiças e injustiças. É dele a chave que dá e tira o valor das coisas. Com o avanço do tempo aprendemos como deveríamos ter lidado com ele, mas essa lição é difícil de ensinar aos mais novos, afoitos que os anos se passem depressa para lhes trazerem a idade de realizarem coisas. As fotos então têm seu valor aumentado em muito: contam causos, remedeiam a memória, encarnam finados e trazem para perto os que moram longe.

O tempo é o artífice que nos molda o rosto de barro, conforme seu humor. Há aqueles que conservam em todas as idades os belos traços, ajudando nas previsões futuras de como a criança chamará a atenção quando crescida, bem como nas retroativas, que investigam quanta beleza havia na juventude. Igualmente, há os que padecem durante toda a vida da má vontade de nosso escultor, sendo obrigados a confiar a outros instintos e qualidades a conquista de um parceiro e obséquios. Mas aposto que a maioria dos mortais vive mesmo é de fases. Há tempos em que são visitados pela harmoniosa simetria das partes, conferindo-lhes clara vantagem de aparência, e há tempos em que são abandonados pelo motor da perdição de Narciso. É como um ensinamento de que se deve aproveitar cada fase, nem se vangloriando nem se menosprezando, pois haverá o tempo de ouvir elogios e a época de apreciar sua raridade.

É pois, isso, o tempo. Feliz daquele que compreender essas coisas em seu tempo devido, para não lamentar ou se tornar ansioso inapropriadamente. Ser chamado de sábio ou néscio disso depende. Mas continuemos tentando incultir nos mais jovens o respeito por esse que nos levanta e nos rebaixa. E guardemos as fotos a fim de que possamos futuramente fazer um balanço de sua passagem.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Ano novo


Mais um ano-novo
Dessa vez é o 2014
O ano velho que aniversaria
Um 2013 mais velho
Diferente talvez
Na verdade, provavelmente
Depende de cada um
não esperar
não sentar
não vacilar
Mas correr, buscar
Criar um novo ano
com tudo o que o outro teve
Acrescido das experiências
tão caras
Um ano para:
aprender mais
viver mais
Descobrir a passagem secreta
de cada coração
e desvendar ali o vale escondido
Materializar sonhos
ao tocá-los
Que 2014 não seja um ponto
Mas um capítulo
daqueles bem longos
– mas marcantes
da história de nossas vidas

E, por fim, os votos que não envelhecem, apesar da muita idade. Que se repetem, não sendo os mesmos:

Feliz Ano-novo! Feliz 2014!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Eu, filho de negro, preconceituoso


Nasci branco. Aliás, minha pele era branca. Como não me era permitido passar o dia na rua como as crianças da vizinhança, mantive essa cor, ora alternada com um aspecto amarelado (que me incomodava bastante quando caçoavam de mim). Nasci branco, com lábios grossos, de negro – herança da ascendência de meu pai –, e um nariz indeciso entre qual raça seguir. Sim, nasci branco, mas acima de tudo, nasci pobre – e assim permaneci por muito tempo.

Onde morava todos também eram pobres. Gente de todo jeito: brancos, morenos, loiros, negros, cor de jambo, pardos, amarelos, albinos, queimados do sol (a maioria), tipo índios, de olhos verdes, pretos, castanho-claro, escuro, azuis, de duas cores, cabelos vermelhos, pretos, castanhos, loiros, lisos, ondulados, encaracolados, tuins. Uma verdadeira profusão de cores e modos, unidos pela pobreza, que os reduzia a uma única raça. Uma raça capenga, mambembe, desprezada, esquecida, odiada e descrente de si.

Cresci como os cães e gatos, enxergando as cenas da vida em tons de cinza ou poucas cores. Como os cães e gatos, enxergava o mundo como donos e bichos, dominantes e dominados. Os que tinham dinheiro mandavam, enquanto os que não tinham eram subjugados. Os que tinham dinheiro eram mais fortes, e nós, os fracos, os seguíamos. As coisas eram assim, na minha visão de mundo (recrudescida pela frase que meu pai ouviu de duas crianças ricas e jamais esqueceu: “(...) Eles são pobre. Eles rouba”).

Mas, à medida que crescia, ouvia pessoas reclamando de preconceito e discriminação contra negros. Achava estranho, pois na prática não via tais casos – a bem da verdade, vi alguns poucos, velados, sem impacto direto, principalmente de parte de gente de muita idade, com reminiscências indiretas da escravidão. Meus melhores amigos, em épocas diferentes, eram negros (e só agora notei isso). Conheci negros inteligentes, pouco espertos, professores, mendigos. Ou seja, sem qualquer evidência de que a cor de sua pele significasse alguma coisa. Lembro que fiquei surpreso quando alguém me disse que a exigência “de boa aparência”, recorrente em anúncios de emprego, na verdade significava “não-negro”. Espantei-me por dois motivos: se alguém tinha essa interpretação é porque achava os negros feios, e como pode também alguém dispensar um negro de boa aparência? Conheci negros horríveis, lindos, medianos, feios e bonitos (assim como ocorre em qualquer raça). Também não consegui entender a brincadeira (sem graça, frise-se) que uma morena fez apontando para sua pele, e só compreendi que falava de sua cor porque teve de explicar-me do que se tratava. Igualmente custei a entender a expressão “dia de branco”. Posso dizer que eu era isento de preconceito. Nunca enxerguei as pessoas em cores. Pessoas eram pessoas e seus atos caracterizavam quem eram. Não conseguia entender o que a cor de alguém tinha a ver com essa pessoa ter sucesso ou não na vida, ou serem discriminadas por isso.

Passei por todas as dificuldades a que uma pessoa da periferia está sujeita, mesmo não sendo negro (hoje declaro ser pardo). Estudei em uma escola pública péssima. Tive que me esforçar em dobro, aprendendo muito mais sozinho que com os professores. Tive que perceber o olhar de pena ao fazer conhecer o bairro em que morava – enquanto outros preferiam me ignorar pelo mesmo motivo. Esforcei-me como pude para mudar minha situação, e hoje isso são apenas lembranças que me contam como é difícil para quem nasce pobre mudar de vida. Não tive mãos amigas – poucas, que apenas me ensejaram força – nem condescendência, muito menos facilidades. Nadando contra a correnteza da vida, entendi que conhecimento (de todas as naturezas) é a moeda de troca da sociedade, e muitas vezes ele e o dinheiro andam juntos.

A partir do novo assento que tomei na sociedade, testemunhei pessoas “brancas” fazendo declarações abertamente preconceituosas – embora tentassem dizê-las de modo reservado. Um disse que sente um certo incômodo quando vê um negro se formando – e achava que todos os presentes também compartilhavam desse sentimento torpe. Outro deu a entender que podia usar a cor de um atendente de balcão para lembrar-lhe de sua posição social, ao repreender-lhe. Esses casos me soam tremendamente estúpidos e dignos de descarte imediato, cabendo repreensão o mais rude possível. Mas não foram esses casos que me mudaram. Eles são uma afronta a tudo quanto existe de moral no mundo e me enojam e nunca poderiam transformar-me. Mas algo em mim mudou...

Isso aconteceu quando conheci os militantes anti-racismo. Eles lutam de uma maneira exacerbada e, para mim, discutível. Em vez de querer igualar as raças, parecem buscar ainda mais diferençá-las. Ao invés de relevá-las, pretendem especializá-las. Às vezes me confundem se pregam a superioridade de sua raça preferida ou se tentam compensar deficiências inatas. Eles enxergam racismo em simplesmente tudo que envolva um negro. Como o monstro infantil que habita os guarda-roupas, fortalecem o preconceito de tanto falarem nele. Tornaram inocentes em réus e suspeitos em culpados, sumariamente. Cada passo do homem comum é agora pensado em termos de medo em ser capturado pela patrulha racial, supostamente bem intencionada. Tenho dúvidas quanto a isso. Às veze penso que são pessoas que carregam o preconceito entranhado consigo, mas, reconhecendo ser algo mau, se esforçam por extirpá-lo, e, nessa sanha, acusam todos de compartilhar desse sentimento a fim de dividir o peso de sua consciência. Foram eles que me fizeram enxergar em cores.

Hoje já não sou o mesmo quando vejo um negro. Quero considerá-lo inferior, cheio de defeitos, vindo sempre de uma origem bruta, amparado em concessões de benfeitoria, arrogante de direitos, objeto de condolência, indigno de ocupar a boa situação social em que está ou merecedor do destino cruel que sobre ele se abateu. Mas aí lembro de meu pai e meu irmão mais velho, que nunca usaram a cor para nada (embora meu pai se ressentisse dela, bisneto de um contemporâneo da escravidão). Lembro de meus melhores amigos. Das pessoas com quem convivi durante a maior parte de minha vida... Lembro de quando eu era como os cães e gatos... E volto a mim mesmo e expurgo esses pensamentos medonhos e me tenho vergonha. E volto a odiar os militantes anti-racismo por me fazerem ver o mundo em cores.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sugestão de leitura



Título: Devassos por Natureza – Provocações sobre Sexo e a Condição Humana
Autor: Jesse Bering
Editora: Zahar
ISBN: 978-85-378-0958-7






O comportamento humano é um dos mais complexos objetos de estudo para as áreas do conhecimento, seja a filosofia, a psicologia ou a ciência em geral. São vários os fatores envolvidos na caracterização da índole de cada indivíduo. Discussões a respeito de determinismo genético e influência do meio são antigas e estão longe de ter fim. Dentre os aspectos envolvidos, a sexualidade merece especial atenção, e o principal empecilho para avançar em seu entendimento é a falta de disposição de diversos segmentos (ativistas, intelectuais e até pesquisadores) em abandonar ideias pré-concebidas e míopes a esse respeito para que se possa construir um genuíno saber científico que seja útil para a sociedade.

Em seu livro intitulado Devassos por Natureza, Jesse Bering se dispõe a enfrentar sem qualquer receio essas mentes que atravancam seu caminho de contínuo buscador da verdade, ao mesmo passo que lança questões provocantes para os leitores repensarem a questão da conduta sexual em nosso meio. Distúrbios estranhos, origem da sexualidade, zoofilia, falta de sexualidade, pedofilia, são alguns temas explorados pelo autor, de forma erudita e ao mesmo tempo simples e acessível a quem tem um mínimo de cultura.

O maior trunfo do livro é ser seu autor praticamente imune a acusações de preconceito ou partidarismo. Doutor em psicologia, sectário do evolucionismo, homossexual assumido e ateu, ele pode criticar livremente questões como formação da homossexualidade e benefícios de acreditar em Deus. Ele busca, o máximo possível, analisar qualquer questão (desde a forma do órgão sexual masculino até a taxa de reprodução entre religiosos e não-religiosos) a partir de uma visão científica (algo que às vezes até cientistas não conseguem, presos que estão a suas crenças pessoais), livre de pré-conceitos e almejando descobrir a verdade, independentemente de pressões sociais.

Entre as polêmicas do livro destaca-se a posição do autor de que não nascemos com nossa sexualidade definida, mas que é fruto de um processo complexo e ainda não desvendado que envolve, entre outras coisas, experiências vividas na infância – algo que nossos ativistas pelo direito dos homossexuais deveriam entender*. Pode-se ressaltar também a questão da pedofilia, onde ele critica que o medo que cerca o tema impede que se avalie a questão em detalhes, uma vez que a maioria das pessoas tem desejos por adolescentes e jovens e tentam reprimi-lo realizando acusações contra outrem.

Devassos por Natureza é recomendado para todos os que não se incomodam em conhecer ideias diferentes das suas e às vezes da sociedade como um todo, além de apreciar elucubrações raras e aparentemente estranhas.


* Isso não é uma afirmação que os homossexuais não devam ter direitos. A crítica é à defesa utilizada em seu auxílio.

sábado, 23 de novembro de 2013

Sugestão de leitura




Título: O Cortiço
Autor: Aluísio Azevedo
Editora: várias








Nem sempre autores falavam em seus livros de lugares que nunca foram (como Chico Buarque, no romance Budapeste) ou problemas dos quais não conheciam (os militantes modernos). Eles precisavam conhecer bem o tema que queriam retratar, a fim de traçar um panorama real e um retrato confiável em suas obras. Em uma época em que fotos eram artigo de luxo ou estavam engatinhando e o cinema estava longe de surgir, cabia à palavra escrita a responsável e árdua tarefa de descrever tudo quanto havia no mundo, desde a descoberta de uma terra desconhecida, um novo mundo, aos relatos da vidinha cotidiana. Desse modo surge O Cortiço, certamente um dos melhores livros da literatura brasileira.

Aluísio Azevedo era maranhense e, como era comum no Brasil do século XIX, morou e trabalhou durante algum tempo no Rio de Janeiro. Nessa época, o que já foi morro, periferia, e hoje é comunidade, antes havia sido cortiço – um conglomerado de pobres das mais diversas estirpes. Foi em um desses que Aluísio Azevedo alugou um quarto e morou durante certo tempo a fim de conhecer o modo de vida daquelas pessoas e descrevê-las com incomum acurácia. Influenciado pelo Realismo europeu e pela corrente positivista, o autor não poupou nos zoomorfismos, utilizando expressões e comparações com animais para ilustrar as ações dos personagens, sem contudo defendê-los ou acusá-los, mas apenas narrando seu modo de vida segundo uma visão de mundo. A descrição detalhada de Aluísio surpreende. O despertar no cortiço e a menarca de Pombinha são passagens antológicas que atestam essa característica na trama, cujo personagem-central é o próprio cortiço.

O livro inicia com a trajetória de João Romão, que passa de adolescente ajudante de taverna a dono de cortiço (e, por fim, integrante da alta sociedade carioca), através de uma sequência de trambiques, onde até mesmo falsifica uma carta de alforria para uma escrava que se torna sua esposa. Junto com o cortiço vêm dezenas de personagens, alguns com história própria, como é o caso de Jerônimo, Rita Baiana e Pombinha. Sobram ironias e críticas a uma sociedade ainda mais hipócrita que a atual. A narrativa deixa transparecer que o homem é moldado pelo meio em que vive, do qual não pode escapar, como bem preconizava o cientificismo da época.
Seguem alguns trechos da obra:

Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.

***
Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.
João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante direto dos sofrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abriu-se com ele, contou-lhe a sua vida de amofinações e dificuldades. “Seu senhor comia-lhe a pele do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar pr’ali, todos os meses, vinte mil-réis em dinheiro!” E segredou-lhe então o que tinha juntado para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fora roubada por gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos.
Daí em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela produzia e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte mil-réis mensais. Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de “Seu João”, como ela dizia. Seu João debitava metodicamente essas pequenas quantias num caderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escrito e em letras cortadas de jornal: “Ativo e passivo de Bertoleza”.
E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espírito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava dele, cegamente, todo e qualquer arbítrio. Por último, se alguém precisava tratar com ela qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de procurá-la, ia logo direito a João Romão.
Quando deram fé estavam amigados.
Ele propôs-lhe morarem juntos e ela concordou de braços abertos, feliz em meter-se de novo com um português, porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua.
***

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns quartos saiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se à luz nova do dia.
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pêlo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sangüínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.

domingo, 10 de novembro de 2013

Perdemos a guerra

Má notícia para os amantes das belas-artes: seus dias (os delas) estão contados. Sim, esqueça a efervescência de novas telas, o arroubo de grandes poemas, a verve de eternas composições. Tudo isso é passado. Cabe a nós tão somente nos atermos ao legado dos gênios e mestres, não esperando nada daqui para a frente. Como disse o poeta: “o século está podre”. E esse em que estamos já nasceu em estágio avançado de putrefação. 

E não são apenas as artes que se esvaem em sangue. Os bons costumes também vão pelo mesmo caminho. Antes as pessoas lutavam para expressar sua sexualidade. Hoje elas brigam para expô-la. E do pior ponto de vista possível, sem qualquer busca por resultados justificáveis. Já não há mais idade para iniciação sexual. A inocência das crianças, antes tida como símbolo máximo da pureza, cantada em verso e prosa, caducou. Extinguiu-se. Adultos e infantes compartilham as mesmas indecências, embora essas últimas sejam dispensadas de demonstrar respeito e responsabilidade.

Essa geração, ao contrário de todas as outras, não renovou a arte. Ela a destruiu. Tem-lhe ojeriza. Os movimentos vanguardistas, que traziam em seu bojo o sopro de renovação, a ânsia por expressar seus sentimentos de outra maneira, minguaram. O que se percebe é uma apatia geral. Uma mediocridade que grassa entre os ditos artistas modernos.

E engana-se quem pensa que falo apenas da nata artística – aquela que constitui o panteão eterno da genialidade humana. Refiro-me a toda a gradação de qualidade de produções do gênero. Na literatura, há livros eternizados pelo modo como foram escritos, enquanto outros são sempre lembrados pela estória que carregam. Os livros de hoje são fáceis, não oferecem desafio intelectual algum, muito menos uma escrita elegante. E mesmo esses não encontram leitores ávidos, salvo raras exceções. As músicas populares destinadas às massas têm um muito curto prazo de validade, ao cabo do qual são totalmente esquecidas, e não há uma única frase que fique para a posteridade. Pintores não se esmeram mais. Rabiscam telas e as vendem por altos valores, ainda que não saibam do que se trata – por isso que a muitos desses quadros não foi possível ao autor dar-lhes nomes.

Não adianta rebelarmo-nos, bradar contra, achincalhar. Perdemos a guerra. Essa geração é composta de ignorantes, e na insipiência é que se sentem à vontade. Acham que construir um novo mundo é sepultar tudo o que veio antes deles. Desconhecem que toda grande nação tem por alicerce o saber dos antigos, sua herança intelectual, suas produções diversas. Eles acham que podem fazer melhor, mas o fato é que terminarão por reinventar a roda pelo simples fato de não saberem que ela já existe. Esse é simplesmente o maior retrocesso de todos os tempos.

E ai dos que se dedicam à árdura tarefa de criticar. Como uma pequena zebra em meio a leões, são perseguidos por tentarem julgar a qualidade do que se produz hoje. O liberalismo moral e estético não admite críticas. Ele apregoa que tudo o que se produz é bom, a partir de algum ponto de vista. Sob essa alforria irresponsável têm surgido toda sorte de pseudo-artistas, deturpando padrões e maculando as artes clássicas. Usam a arte, sem contudo a conhecerem ou fazerem parte dela, sem contribuírem nem um pouco com sua causa.

Mas acredito piamente nos ciclos. Creio que, assim como a rica cultura grega foi redescoberta nos anos negros da Idade Média, alguma geração futura remeterá aos grandes vultos que ora se dissipam em busca de justificativa para a humanidade. Oxalá ela possa reacender o espírito criativo e a inquietação estética que se encontra adormecida e desprezada. Enquanto isso, que ninguém se engane: perdemos a guerra, camaradas! Deixemo-nos silenciar e nos saciarmos nas poucas representações realmente verdadeiras que ainda surgem de quando em quando, tímidas, às escondidas, temendo a repreensão da turba ignorante. Desejemos sorte para os que vierem depois de nós. Que eles possam reverter esse quadro. À morte digna, companheiros!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Caiu na net

Não basta esbravejar contra quem divulga vídeos íntimos na Internet, prejudicando outrem. É necessário conscientizar as pessoas de como podem ser corresponsáveis através de seus deslizes.



Há alguns dias vi, em uma rede social, uma postagem de alguém em apoio a uma jovem chamada Fran. Na verdade, era uma replicação de um blog de outra pessoa. Como não sabia do que se tratava, busquei mais informações. Tratava-se de mais um desses casos conhecidos como “caiu na net” – fotos ou vídeos íntimos (a maioria de relações sexuais) que são postados na Internet, normalmente contra a vontade de ao menos um dos protagonistas. Esse em particular ficou conhecido devido ao fato de ter se tornado “meme” – ideia que se espalha rapidamente através da Internet –, pois, em um dado momento do vídeo, a jovem mencionada anteriormente faz um sinal (incomum para a ocasião) com a mão, parecido com o sinal de “ok”. A propósito, as pessoas que lhe prestavam apoio na Internet repetiam o gesto que a tornou conhecida.

Casos semelhantes não faltam na grande rede. A maioria com o mesmo fim: quem tem o vídeo divulgado abandona emprego, para de sair de casa, muda de cidade – um caso recente culminou em suicídio. Um transtorno para ela e para a família. Normalmente a vítima é uma mulher. As razões variam: vingança, câmera ou aparelho celular roubado, arquivos copiados sem autorização por terceiros, etc. Há sites especializados apenas nesse tipo de material, e há pessoas fascinadas por ele devido ao realismo, bem diferente das filmagens pornográficas realizadas em estúdio. Faixa etária e posição social dos vitimados são as mais diversas possíveis. Algumas fotos/filmagens são realizadas de comum acordo (aparentemente a maioria), outras sem consentimento. Enfim, há de tudo.


O vídeo citado no início do texto não traz nada de novo, mas como tornou-se conhecido, é um bom mote para tratar do tema. Em primeiro lugar, é desnecessário dizer que, nos casos onde alguém deliberadamente divulga um vídeo desse tipo sem o consentimento de quem está nele exposto, com a finalidade de prejudicá-lo, não pode ser classificado como menos que mau caráter. No limite, como criminoso, um sociopata. Mas essa não é a abordagem que pretendo aqui, até mesmo porque para isso existem inúmeras pessoas que não se cansam de fazê-lo. Meu objetivo é analisar um outro aspecto de tais casos. Afinal, bradar contra todo culpado que surja para cada novo caso não é de modo algum produtivo. O bom é utilizar a inteligência e extrair algo útil dessa questão.


Quando as populações europeias da Idade Média começaram a melhorar de vida através da circulação do dinheiro, os bancos, então já existentes, prosperaram. O capital financeiro era importante demais para ser guardado em casa ou circular com seu dono pelas ruas e estradas, sujeito a saqueadores. Hoje isso continua uma verdade, tanto que dispomos de modernos substitutos das cédulas e moedas, como cheques e cartões de crédito. O dinheiro é algo trabalhoso de se conseguir (ao menos para a maioria das pessoas) e valioso o suficiente para que as pessoas evitem expô-lo ao risco de o perder. Alguns o entregam aos bancos, enquanto outros o empregam em negócios financeiros. E esse cuidado não se restringe apenas ao pecúlio, mas a toda sorte de bens. Alguns bancos abrigam joias, documentos, objetos raros, entre outras coisas, todas com valor para seus donos.


Infelizmente, não podemos guardar bens intangíveis nos cofres fortificados dos bancos. Esse tipo de bem exige outro tipo de tratamento e segurança, que cabe quase exclusivamente a nós e a uns poucos a quem os confiamos. Honra, lisura, caráter, fama, prestígio, confiança. São valores construídos com esforço e que podem ser facilmente destruídos. Basta um passo em falso. Embora haja uma tendência crescente de exposição da sexualidade, através de festas como bailes funks, a verdade é que a intimidade permanece como parte da identidade de um indivíduo que ele prefere manter entre quatro paredes. Seu comportamento durante o ato sexual não é algo que deva ser devassado, sob risco de trazer graves consequências e ignomínia, talvez irremediáveis. Sendo assim, talvez seja o caso de nos acercarmos dos maiores cuidados possíveis a fim de preservar nossa imagem.


O grau de liberdade sexual que vimos experimentando década após década dá margem para que pessoas que se sentem excitadas ao fazerem sexo frente a câmeras possam gravar a si mesmas, livres de qualquer dilema moral. No entanto, deve-se atentar que esse fato, a princípio simples e desprovido de riscos, pode-se constituir em prova ou elemento de chantagem que será utilizado contra seu autor. Por isso, duas medidas importantes devem ser tomadas quando se praticar tal atividade.


A primeira delas é mais que óbvia: a escolha do parceiro. Deixar-se filmar em um encontro de sexo casual com um desconhecido é assinar um cheque em branco – claro, e você apenas ponderará a respeito se estiver minimamente sóbrio. Gravar um vídeo com um companheiro de tempos e relação estável também não é garantia de tranquilidade eterna. Como dito antes, a divulgação intencional a fim de prejudicar outrem só pode ser perpetrada por pessoas muito más e/ou doentes. A questão – e se você for minimamente sincero irá concordar – é que esse tipo de homem (foco no gênero masculino devido a ser ele o principal divulgador desse tipo de vídeo) desfruta de grande prestígio entre as mulheres – e há estudos científicos que buscam explicações para esse incômodo fenômeno. Como nossas mulheres ainda vivem a ilusão do amor romântico, onde elas criam um perfil de homem ideal e o preenchem com qualquer um, passam então a ignorar propositadamente tudo que não se encaixa no personagem criado mentalmente – porque o mais importante é a relação, e não o companheiro. Ora, ninguém é mau uma única vez na vida, ainda mais com um ato tão hediondo. As pessoas dão demonstrações várias e repetidas de seu caráter, mas compete a quem quiser vê-los enxergar. Tudo bem que aparências enganam (o risco sempre haverá, mas o importante é tentar mitigá-lo ao máximo), mas encher-se de toda a ingenuidade do mundo e registrar algo tão íntimo e com alto poder devastador com um parceiro arriscado não ajuda em nada. É preciso analisar o que vale a pena.


O segundo cuidado que se deve ter é com o conteúdo registrado. O que fazer com ele? Onde guardá-lo? E por quanto tempo? Mesmo nos casos em que se obsevou o primeiro aspecto (o do companheiro), nada garante que o vídeo vá ao ar pela ação de terceiros. Há muitos displicentes que copiam esse conteúdo para computadores do trabalho, onde pode ser copiado indiscriminadamente, ou enviam seus notebooks para manutenção sem tomar qualquer cuidado. Classificar isso como irresponsabilidade é dizer pouco. É não atentar para o potencial devastador de sua divulgação, colocando a vítima lado a lado com o criminoso, em nível de delinquência mental. Deve-se criar a cultura e a consciência de que isso é arriscado e cuidados devem ser tomados a fim de não se ver em uma situação indelicada como tantos outros mundo afora.

Concordo que é válido lutar pelo extermínio dessa prática, assim como também o é defender o fim de roubos, assassinatos, estupros, preconceito, etc. São desordens que estão com a humanidade desde os tempos imemoriais e não têm pressa nem previsão de irem embora. Até lá, é mais prudente adotar uma postura pragmática que surta efeito a curto prazo, em vez de tentar atingir um inimigo quase invencível.


O pai de Sidarta Gautama – hoje conhecido pelo nome de Buda – sabia que o mundo era mau, por isso mantinha o filho trancafiado dentro dos muros do palácio, a fim de não tomar conhecimento da miséria do mundo. Mas como esse modelo era insustentável, um dia o jovem saiu e ficou chocado com o que havia lá fora, pois não fora preparado para isso. Felizmente, ele encontrou seu caminho e é hoje admirado – e seguido – por milhares de pessoas. Embora a maioria dos militantes e simpatizantes se condoam dos que passam por tal abuso, não adianta querer mudar o mundo a fim de protegê-los. O caminho seguro é ensiná-los os perigos do mundo para que nunca caiam neles.