Sou alagoano. Nasci e cresci em
Maceió, onde passei vinte e sete anos e meio de minha vida. Durante
esses anos, odiei tudo o que havia lá. Imaginava que todos os outros
lugares eram melhores: as pessoas eram mais felizes, o sistema de
transporte era melhor, o sol não queimava tanto. Mas, como tudo tem
sua época, chegou o dia de partir e conhecer o mundo. E foi aí que
tudo mudou.
O primeiro lugar que conheci foi a
mais idolatrada cidade brasileira, a antiga capital do império. Lá,
o primeiro lugar turístico que visitei foi a praia mais famosa do
Brasil. Todo meu entusiasmo se desfez quando a avistei. Se fosse
durante o dia, talvez minha frustração tivesse sido menor, mas à
noite, a única coisa que pude fazer foi compará-la com a praia mais
feia de minha terra que pude lembrar. Conheci vários outros lugares
da cidade. Alguns me surpreenderam, outros me causaram desolação.
Eram lugares bonitos na visão e nas palavras dos outros, movidos que
eram pela obrigação de concordarem com a maioria, com o senso
comum. A cada coisa que conhecia – restaurante, lugar, pessoas –,
a comparação com a terra de origem era inevitável. Às vezes
concordava com a “superioridade”, outras vezes não, e por outras
considerava apenas uma forma de ser ou fazer diferente, não
necessariamente melhor ou pior.
Conheci outras cidades, e não
comparar tornou-se impossível – afinal, é comparando que fazemos
nossas escolhas. Ao fim de tudo, percebi que, a despeito dos muitos e
graves defeitos de minha terra, há aspectos que merecem elogios,
alguns rasgados até. Eu sei que se trata de um estado de violência
assustadora, mas também é um estado que abriga praias incríveis.
Reconheço que possui a pior educação do país, mas possui uma
gastronomia notável. E, apesar do total descaso dos diversos
governantes, sua gente carrega o estado nas costas com bravura e
determinação. Se você possui um mínimo de cultura, pode agora
lembrar de alagoanos ilustres em áreas tão diversas como música,
política e esportes.
Mas seria um tanto quanto injusto de
minha parte restringir esse orgulho unicamente a meu estado, quando
há diversos outros estados tão semelhantes ao meu que não gozam de
prestígio algum por parte de diversos outros estados. Sou
nordestino, assim como diversos outros. Somos discriminados, mas ao
mesmo tempo usamos essa barreira para buscarmos com mais dignidade e
força superar a desvantagem com a qual começamos a vida. Aguentamos
o calor que castiga, suportamos a seca que assola, sobrevivemos às
chuvas que levam vidas. O sertão é quem seleciona os mais aptos a
continuar nesse mundo. Abandonados pelos governantes, aprendemos a
agir sem a mão do Estado que deveria cuidar de seus filhos todos.
Buscamos por nossos próprios meios alcançar
os grandes e nos tornar como eles.
Mas os turistas adoram vir desfrutar
de nosso sol, nosso mar, nossas comidas e festas típicas. E voltam
felizes para a selva urbana e seu ar poluído. Devo dizer que não
prego a superioridade nordestina, pois o que é ser superior? Ter uma
herança cultural rica? Receber uma bênção da natureza? Herdar a
história de um povo? Mas de modo algum me envergonharei ou sentirei
constrangimento de minha origem. Só devemos sentir acanhamento por
algo de que somos responsáveis. Podemos nos frustrar por não
conseguirmos alcançar os sonhos dos quais não corremos atrás.
Podemos nos desesperar por nossa desistência sem luta. Podemos
sofrer pela falta de esforço em desenvolver uma habilidade. Mas
nunca poderemos nos culpar pela terra-natal. Não escolhi onde
nascer, mas não posso mais falar de onde nasci. Posso apenas fazer
côro com os milhares, milhões de outros conterrâneos que, como eu,
chegaram ao nível de reconhecimento e altura daqueles que não
precisaram lutar todo o tempo contra as circunstâncias da vida.
Reconheço um certo chauvinismo
regionalista nesse discurso, mas não posso deixar de contestar os
que acham que podem me ridicularizar. Não estou pedindo que você
ame minha terra, apenas peço que a respeite. Tampouco estou pedindo
que você venha morar nela, afinal, talvez lhe falte a aspereza
necessária para sobreviver aqui, para encarar a vida severina. Sou
do nordeste, lugar de histórias, de cultura, de personagens
imortais, de belezas naturais as mais diversas e comidas únicas. Sou
do nordeste da fala arrastada, do “oxente”, do São João, do
bumba-meu-boi, do cangaço, do cordel. Sou do nordeste da rapadura, da tapioca,
das frutas maduras que só tem aqui, das danças folclóricas, das
bandas de pífano, da sanfona-zabumba-triângulo. Sou do nordeste de
lindas mulheres, não da beleza padronizada, recomendada, mas da
beleza agreste que não pede licença e se impõe. Não vou fazer uma
lista de nossos herois, pois isso daria um livro de incontáveis
páginas. Vou apenas dizer que todo nordestino é um heroi da
sobrevivência, da fé, da esperança. Somos herois por aguentar
tanto sofrimento e mantermos vivo o bom-humor característico. Se
ninguém é por nós, somos unidos para nos fazermos fortes, porque o
nordestino é, antes de tudo, um forte.
E sempre que me perguntarem sobre
minha origem, sempre responderei: nordestino, sim sinhô!
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