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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Alagoas

Ver o mar
Ouvir o mar
Sentir a brisa do mar

Ver o sol
Sentir o sol
Deixar o sol me queimar

Ver o céu
Olhar pro céu
Brincar com as nuvens do céu

Esperar a lua
Amar a lua
Ter a companhia da lua

Pisar a areia
Sentir a areia
Se esparramar na areia

Provar teus sabores
Lembrar teus sabores
E assim se deliciar

Ver tua gente
Falar com tua gente
E se sentir em casa

Estar em você
Voltar pra você
Querer você melhor
– Alagoas!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Motes e enumeração

Exercícios de uma época em que estudei poesia.

Exercício de enumeração


Mulher
Olhos
Cabelos
Lábios
Seios
Cintura
Pernas em geral
O olhar
O falar
O ouvir
O recordar
O mover-se
Roupas
Faltou algo?
Sim: as ideias


Exercícios de desenvolvimento a partir de mote


Mote: Esses inquietos ventos andarilhos

Desenvolvimento:
Esses inquietos ventos andarilhos
que vem, vão, vem, vão, num indo-vindo ad aeternum
Bolem num, mexem co'outro
como se disso dependesse sua existência
Onde dormem? E pra onde vão quando vem chuva?
Morrem se amadurecem, refreando as travessuras –
deixam de lado as saias, esquecem os chapéus, abandonam os papéis
Tudo acaba em ar
Ou vento


Mote:  Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco

Desenvolvimento:
Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco
Coitada! Deveria cuidar da geometria, para não perfazer o caminho mais longo
Branco deserto frio, habitado por criaturas velozes e esguias
sedentas de sulcar a superfície plana
Corre, formiguinha!


Mote:  O fim do cigarro tem uma tristeza de fim-de-linha

Desenvolvimento:

O fim do cigarro tem uma tristeza de fim-de-linha
E agora, como fica?
O pensamento suspenso, inacabado
A mão trêmula, a ponta da caneta ofegante
Mas, onde arrumar espaço?
A idéia tem que continuar, a linha idem
Mas para onde?
A folha, esse ente sabotador, limitado, não compreende a grandiosidade
a missão
o prazer de terminar de escrever
um fim-de-linha


Mote:  Uma senhora gorda, com um chapéu de plumas

Desenvolvimento:
Uma senhora gorda, com um chapéu de plumas
Antítese ambulante
Um numerador gracioso encimando um denominador ofegante
E ainda dizem que os opostos se atraem




domingo, 2 de setembro de 2012

Pequeno(íssimo) ensaio sobre o ponto de exclamação

O ponto de exclamação é, dentre os sinais de pontuação, o que melhor expressa a faceta humana. Pois para que serve o ponto, a vírgula? Apenas indicam que somos seres aeróbicos. E o dois-pontos? Lembra-nos que sabemos contar. A interrogação se sai bem: demonstra que indagamos, que queremos respostas. Mas só a exclamação transmite a profundidade das sensações humanas. Abrange a gradação da tristeza à alegria, da admiração ao espanto. Dois sinais alinhados que diferenciam os homens dos animais. Basta juntá-lo a uma frase para mudá-la de simples descrição de idéias para expressão de sentimentos. Por isso convém que se utilize com parcimônia, pois pode provocar intrigas se utilizado inconvenientemente. Por outro lado, pode-se não alcançar o resultado previsto se omiti-lo. É preferível usá-lo em número de um ou três: um para o uso normal a que se presta; três para indicar a informalidade juvenil ou os excessos de nosso povo. Dois é deselegante e além de três é banalizá-lo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cadê


Se você estuda idiomas, deve ter percebido que não há “cadê” gringo. “Cadê” é coisa nossa. Intraduzível. Brasileiríssimo. “Cadê” não pergunta apenas a localização de algo. Inquire sobre sua vida pregressa. “Cadê você?” quer saber por onde alguém andou, o que está fazendo. Pergunta pelas novidades. É melhor que a dobradinha pronome interrogativo-verbo. Estrangeiro não vê “cadê” em seu curso de língua portuguesa Se vissem, se conhecessem nosso “cadê”, amariam-no. Mais. Patenteariam-no. E logo surgiriam o kade alemão, o kad inglês. Os irmãos cadé espanhol e cadé francês. Nosso idioma é melhor porque temos o “cadê ”. A propósito, dizem que nasceu na Bahia...

  • “cadê” vem de “quedê”/“quede”;
  • que vem de “que é de” (os espanhóis estão nesse ponto: “Qué es de María?”);
  • que vem de “que é feito de”;
  • que quer dizer “onde está”.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Voluntariado – porque não adianta ser feliz sozinho

28 de Agosto, Dia Nacional do Voluntariado

A gente estuda, se esforça, faz cursos. Enfrentamos uma universidade, batalhamos por emprego, abrimos negócio próprio. Compramos nosso carro, adquirimos nossa casa, realizamos a viagem dos sonhos. Mas é difícil não sentirmos uma ligeira tristeza ao termos, quando parados no sinal de trânsito, alguém mendigando do lado de fora do carro. Ou ver pessoas – ou algo próximo disso – vasculhando lixo em busca de alimentos. Doentes que poderiam ser curados caso tivessem um mínimo de tratamento médico. Crianças que embrutecem a cada dia na ausência da escola. Será que podemos ser completamente felizes rodeados de tanta tristeza?

Felicidade é o que todos almejam. Nem todos a buscam com esse título. Alguns procuram bem-estar, outros, posses, ou mesmo um companheiro. Nem todos vão encontrá-la seguindo esses caminhos, mas certamente continuarão a busca até se satisfazerem. Infelizmente, há aqueles que tem por ideal de felicidade coisas que a maioria de nós possui e muitas vezes não damos sequer valor. Um teto, uma refeição, uma palavra de consolo, um conselho, roupas um pouco menos surradas, a certeza de voltar vivo para casa, uma família, ler e escrever, matar a sede, poder sorrir, sarar uma dor.

Quando se fala em mazelas da sociedade, logo pensamos nos extremos. Pensamos nos países miseráveis cuja população não tem qualquer esperança de melhora. Lembramos dos moradores de rua que acordam – quando dormem – sem qualquer certeza do que o dia os trará. Mas às vezes nem é preciso irmos tão longe. Às vezes basta olharmos para dentro de nossas casas, para nossa família e perceber algum ente que precisa de um auxílio que podemos dar.

Talvez você ache que as pessoas padecem necessidades unicamente por não terem se esforçado o suficiente em suas vidas. Isso pode ser verdade, desde que as condições iniciais sejam as mesmas. Mas a verdade é que dificilmente é. Para você, que teve acesso à educação, uma família que lhe apoiou e orientou, conheceu pessoas que lhe indicaram que direções seguir, a tarefa do sucesso coube unicamente a você. Mas é fácil ser levado pela maré, o difícil é nadar contra a correnteza. Há pessoas – muitas – que simplesmente não têm nenhum exemplo bem-sucedido em que possam se espelhar. Têm como destino continuar a sina de fracassos que lhes rodeiam. Esse círculo vicioso só pode ser quebrado pela ação de uma força externa. Que tal você ser essa força?

Talvez você relute em aceitar essa ideia, aludindo ao fato de que tal tarefa cabe aos governantes. Sem dúvida, é deles a maior fatia de responsabilidade, mas nem sempre eles a assumem. Certamente eles deveriam cuidar desse problemas, assim como não deveria haver sofrimento no mundo, os pais não deveriam enterrar seus filhos, as doenças deveriam ser menos agressivas e as pessoas deveriam ser boas. Não podemos simplesmente fechar os olhos à realidade e fingir que está tudo bem, deixando as pessoas, nossos irmãos e irmãs, sozinhas com sua penitência de vida. Isso é a própria negação da humanidade que apenas o ser humano possui.

Consulte a si mesmo e descubra o que você pode fazer por alguém. Não precisa ser muito, pois o pouco que você der será multiplicado muitas vezes pela gratidão dos que receberem seu auxílio. Hospitais estão cheios de desconsolados. Escolas comportam muitos alunos sem objetivo na vida. As ruas abrigam pessoas que a cada dia se tornam um pouco menos humanas. Asilos dão guarida a anciãos que passam pelo ocaso da vida de um modo que não planejaram. Há lugares longínquos em que uma pequena contribuição que você pudesse dar em dinheiro seria de grande valia – principalmente pela conversão em suas fracas moedas locais. Lembre-se que suas ações, boas ou más, terão um retorno, para você e para os outros. Que tipo de retorno você quer ter? Que marca você quer deixar no mundo?



O livro Dignidade é um bom ponto de partida para quem pensa em voluntariado. Ele é iniciativa da organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) – Nobel da Paz em 1999 –, instituição que oferece serviços médicos em regiões de difícil acesso, seja em florestas ou zonas de conflito. O livro consiste em nove histórias redigidas por escritores conhecidos do meio literário (a exemplo de Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura) que vivenciaram de perto um projeto da MSF –  e não não cobraram cachê por isso. Cinco por cento do valor do livro é revertido para ações do projeto. Quem sentir interesse em contribuir para essa causa pode se tornar um doador através do site ou por telefone.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sugestão de leitura



Título: O Poder dos Quietos
Autor: Susan Cain
Editora: Agir
ISBN: 978-85-220-1326-5


  



Primeiro dia de aula. Você fica ansioso com o novo ambiente. Tanta gente estranha te dá nervosismo. Os grupos começam a se formar e você sobra, embora saiba que em algum momento irá conhecer algumas daquelas pessoas. Falar para um pequeno grupo parece uma tarefa digna de Hércules. Frequentar festas barulhentas exige a coragem de um mártir. Um fim de semana recolhido cultivando a própria solidão, em companhia de livros e pequenas coisas que te dão prazer são o ideal de divertimento. Você tem poucos e bons amigos. Embora não possua traquejo social, é um grande observador. Sua qualidade de bom ouvinte faz com que as pessoas desabafem com você. Problemas difíceis te seduzem, porque você sabe que, dedicando tanto tempo quanto for preciso, conseguirá solucioná-los. Se você se identifica com muitos desses traços, então está de parabéns, você é um introvertido.

A despeito do estereótipo de nerd, os introvertidos possuem características admiradas por muitos e que os levam a diversos lugares, alguns inimagináveis durante a infância frustrada. Em O Poder dos Quietos, Susan Cain – uma introvertida típica – expõe o fruto de anos de dedicação ao tema. São resultados de pesquisas, questionamentos, testes, histórias, tudo em busca da redenção do comportamento introvertido. O mundo hoje vive em clima de apoteose, como se tudo necessitasse de ações espalhafatosas. Os “populares” da escola desfrutam de direitos em meio aos demais alunos. Os universitários que gostam de brilhar em debates são tidos por inteligentes. Os funcionários que se envolvem em várias atividades unicamente para promover sua imagem são indicados para liderança. As empresas pregam que todos devem ser líderes, falantes e convictos. O que ninguém observa é que, além do aluno popular, está o discente estudioso que resolve por completo as listas de exercícios e obtém as melhores notas nos vestibulares. Para cada universitário verboso, há pelo menos um outro que desenvolve pesquisas que tem utilidade para o mundo. Por detrás dos funcionários que tocam o piano, há aqueles outros que levam o instrumento nas costas e sustentam a empresa com atividades sólidas. Embora as empresas valorizem seus vendedores, eles cuidam apenas em sair à rua com os resultados dos esforços dos que ficam nos laboratórios e escritórios criando produtos tangíveis.

Em seu livro, Susan conduz o leitor através de diversas evidências de que não há nada de errado em ser introvertido – embora a timidez, companheira quase inseparável desses, seja muitas vezes companhia indesejada. Pelo contrário. Muito do que há hoje no mundo nos foi dado pelas mentes de introvertidos, entre as quais destacam-se gênios em diversas áreas: Isaac Newton, Albert Einstein, Mozart (três gênios indiscutíveis sob qualquer análise), Marcel Proust, George Orwell (gênios da literatura, apenas para citar alguns), Steven Spielberg (um dos maiores nomes do cinema), Sergey Brin e Larry Page (criadores do Google), John Lasseter (pioneiro da animação digital e nome por trás de grandes animações, como Procurando Nemo, Os Incríveis e Toy Story). A lista é interminável.

À medida que se aprofunda na leitura, o leitor introvertido se descobrirá em cada página, como se fosse ele próprio ali descrito. Os fatos surgem como velhos conhecidos, mas agora sob um sentimento de libertação, pois sabe-se ser fundamentada cada reação do introvertido. É como se o livro fosse a voz para muitos, deixando claro que os quietos não são avessos a pessoas, apenas se sentem confortáveis com poucas delas. Assim como não é que não gostem de conversar, apenas não têm paciência para falar de amenidades durante longos períodos. Também não precisam de grandes eventos para se satisfazerem, sendo a simplicidade das coisas o bastante. Susan também traz informações valiosas a respeito de alguns traços estereotipados dos quietos. Será que são genéticos? Até onde vai o limite do caráter inato? Tem fundamento a imagem de que tímidos têm aparência física frágil? Será que precisamos ser mais extrovertidos?

Embora seja um livro destinado a chamar a atenção do mundo para os quietos, não preconiza de maneira alguma uma suposta superioridade do introvertido. Seu objetivo é que os dois grandes temperamentos, extrovertidos e introvertidos, aprendam a coexistir e a se completarem. Em especial, que os próprios quietos abandonem as dúvidas quanto a seu temperamento e abracem com prazer a compleição que possuem, fechando os ouvidos aos comentários infundados do mundo.

domingo, 19 de agosto de 2012

Crime e valores morais

O recente desmascaramento de grupos criminosos formados por jovens de classe média serve para desfazer o mito injusto de que apenas os pobres cometem crimes.

“Fica evidente que a motivação não é a desigualdade social, mas a falta de valores morais”. A declaração, proferida por uma socióloga, refere-se ao recente desbaratamento de gangues formadas por playboys cujo objetivo era financiar baladas com o fruto de assaltos e sequestros-relâmpago. Para quem vê de fora, essa frase parece uma iluminada revelação, mas para quem está inserido no meio, ela não passa de simples obviedade.

Os governos têm criado programas sociais a fim de promover a distribuição de renda, acreditando com isso afastar o risco da marginalidade nos lares atendidos por esses programas. Na lógica deles, pobreza, pura e simplesmente, gera bandidos. Embora esses fatores muitas vezes se superponham, essa relação não é direta. Criminosos são transgressores da ordem, e os motivos de agirem desse modo variam, mas algo comum a todos eles é a ausência de remorso por suas ações, motivada em grande parte pelo fato de acreditarem que o que praticam é aceitável sob seu ponto de vista. Uma pessoa que ignora a gravidade de seus atos, mesmo sabendo que são prejudiciais para os outros, é desprovida de qualquer grau de senso ético. Esse limite é regulado pelos princípios morais.

Caso a pobreza fosse fator determinante para a criminalidade, então todos os pobres praticariam crimes em algum grau. Mas isso está longe de ser verdade. Assim como é absolutamente falso que filhos de famílias abastadas passam longe da marginalidade. Com efeito, se tomarmos como base a Hierarquia de Necessidades de Maslow1, podemos afirmar que a não realização das necessidades fisiológicas básicas podem impelir alguém ao crime, mas apenas no sentido de satisfazer aquela necessidade. É o caso de alguém que rouba uma fruta na feira a fim de saciar a fome, não o havendo conseguido de outra maneira. Não é o caso de alguém que vira chefe de tráfico, o qual busca essencialmente poder e ostentação. Essa motivação pode estar presente tanto no dono de boca-de-fumo no morro quanto nos universitários de classe média que realizam sequestros.

Negar que há mais pobres no crime do que ricos seria absurdo. Como dito no início, a falta de valores morais favorece a criminalidade. Atualmente, a escassez desses valores ocorre tanto nas classes menos como nas mais favorecidas. No entanto, a falta de acesso à educação formal acaba por prejudicar de certa forma os menos abastados. Até pouco tempo atrás, eram raros os casos de assaltantes, época em que os pais, mesmo os de baixa renda, impunham rígidos valores morais aos filhos. Mas, com o advento de pais jovens e inexperientes aplicando conceitos psicológicos duvidosos de maneira distorcida, as crianças têm recebido um tipo de educação que deixa muito a desejar. Desconhecem limites e implicações de seus atos, forjados na “redoma de amor” dos pais modernos que lhes permitem tudo a fim de compensar a ausência devido ao trabalho. Em lares onde os pais podem financiar o luxo dos filhos, há menos risco de ele buscar recursos através do crime – embora o elevado padrão de vida de que desfrutam ou almejam possa incentivá-los a isso –, mas para aqueles que não podem, escolhem roubar como alternativa, culpando o sistema (que, sim, tem sua parcela de culpa) por seu desvio de conduta , quando na verdade lhes falta força de vontade para trabalhar arduamente.

Há muitos pobres honestos que, mesmo não possuindo recursos para frequentar determinados ambientes e adquirir itens de marcas conhecidas, esforçam-se por manter sua dignidade e caráter. Enquanto isso, há diversos filhinhos-de-papai que desconhecem os limites da ética e da convivência em sociedade, cuidando em utilizar da pior maneira possível o dinheiro dos pais e desperdiçar a oportunidade que tiveram na vida de serem pessoas de bem. Nascer em berço de ouro não é garantia de integridade. A parcela de educação proveniente dos pais ainda é o principal fator em jogo no que tange à formação de um bom cidadão.


1Modelo proposto pelo psicólogo americano Abraham Maslow que dispõe as necessidades humanas em forma de pirâmide, sendo a base formada pelas necessidades mais básicas (como fome e sede), seguindo em gradação até o topo, onde estão as necessidades referentes à realização pessoal (moralidade, criatividade, etc.). De acordo com Maslow, para se atingir um nível superior de satisfação, deve-se primeiro realizar as necessidades do(s) nível(is) anterior(es).