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sábado, 5 de maio de 2012

Meu pai

 (11/01/1953 – 04/05/2007)
Escrevi esse texto no primeiro dia dos pais que passei após a morte do meu. Resolvi publicá-lo aqui passados cinco anos de sua ida.

Dia dos pais, sem pai. Uma realidade comum para tantos configura-se para mim algo novo e de agora em diante perpétuo. A dor da perda é emulada apenas pela dor das lembranças: se boas, trazem saudade e inconformismo pelo ocorrido; se más, causam indignação por não termos agido de outra forma naqueles momentos, pelas mágoas gratuitas, pela incapacidade de ceder. Meu pai se foi, e cá estou eu lembrando, recordando, interpretando o ato que foi sua vida.

Meu pai, um trabalhador. Desde que se entendeu por gente que trabalhava. Nas matas, caçando lenha; no arado, plantando e colhendo; na feira, vendendo; nas casas-de-farinha, transformando a mandioca; no terreiro, tratando a colheita. O grande fardo à cabeça desmaiou-lhe, o gosto de sangue na boca. Causava-lhe medo cavalgar de madrugada pelos lajeiros, sem lua. Como era duro aguentar a fome, o sol a pino, até a hora – já tarde – do almoço – fava e farinha, quase sempre sem mistura. A fuga para a capital, no final da adolescência, não diminuiu o ritmo. O trabalho na construção civil era de igual modo pesado, por vezes vil. Eram duras as noites em que tinha por panela e prato uma lata de cera, e por cama sacos de cimento vazios. Ali aprendeu a profissão que exerceu pelo resto da vida, sob todos os tempos e todos os horários, em numerosas circunstâncias. Chegou a trabalhar os três horários – quantos mais houvessem – quando os filhos estavam pequenos. Não fez apenas clientes. Fez amigos, que compareceram a seu velório e sepultamento.

Meu pai, um especialista. Sem dúvida o “fazer bem feito” era uma verdade em sua condução profissional. Seus serviços não eram uma alternativa; eram a primeira opção para os que o conheceram, e era a ele que recorriam quando o problema parecia não ter solução. Cuidadoso, sempre deixava o ambiente limpo. Exímio descobridor de infiltrações, indicava certeiramente, sem necessidade de rasgos inúteis, a localização destas. Sua experiência tornava-o indiferente àqueles que receberam o grau de engenheiro, e não raro os desafiava e provava estar certo. Sem saber ler, desenvolveu e realizou o projeto hidráulico de edifícios inteiros, com sucesso. Trabalhou em muitos lugares, participou da construção de prédios importantes da cidade, além de muitos outros trabalhos pelo interior. Mas a maior parte do tempo prestou serviço para a classe média e alta dos bairros da orla e condomínios de luxo. Foi com eles que descobriu que dinheiro não dá caráter a ninguém, pelo contrário. Muitas foram as humilhações que viu e sofreu: serviços baratos não pagos, mal pagos, divididos em vezes, comida estragada enviada por almoço, calúnia, alguém que lhe quis dar frutas por pagamento. Destas, houve um fato que o marcou para sempre: duas crianças aproximam-se dele e de seu ajudante e perguntam: “Vocês são pobres?”, e, à resposta afirmativa, arrematam: “Vamos sair daqui. Eles são pobres. Eles roubam.” Frase de uma criança, que provavelmente aprendeu com seus pais, que reflete a condição intelectual de muitos dos abastados desse país.

Meu pai, um sábio. No velório de um senhor, muitos jovens consternados, apesar de não serem seus parentes. A cena pouco comum é explicada pelo fato de que muitos foram os jovens que afluíram a nossa casa para ouvi-lo. Tomar conselhos, ouvir suas experiências de vida. Temas que se estendiam desde o uso do dinheiro a casamentos em crise; do portar-se em casa alheia à vida profissional. Quantas não foram as pessoas que com ele aprenderam coisas da vida e as aplicaram. E quantas não foram as que só acreditaram que estava certo quando viram na prática o que havia dito. Conselheiro de muitos. Homem difícil de se enganar, sempre ressabiado. Percebia mentira de longe. Mesmo com pouca instrução, conseguia enxergar o que muitos doutos ainda hoje descobrem.

Meu pai, um brincalhão. Mesmo havendo sofrido agruras na vida, não fez disso fonte de mágoa. Sempre tinha motivo para sorrir e caçoar tanto dele próprio como dos outros. Adorava crianças, e não havia neném que não risse em seus braços. Sabia-se que vinha chegando pelas gargalhadas. Seu bom-humor manteve-se até os últimos momentos, mesmo quando seu corpo já fraquejava e a voz, embargada, tornara-se incompreensível.

Meu pai, um homem de autoridade. Enquanto muitos acreditam em dinheiro, cargos e conhecimento para demonstrar autoridade, meu pai dispensava todos esses componentes. Sabia impor-se como poucos, não importando a quem: de ricos a marginais, de crianças impossíveis a animais domésticos. Um olhar era o suficiente para seus filhos perceberem o que queria. No entanto, economizava no uso dessa autoridade, como que considerando-a estratégica.

Meu pai, um esperançoso. A certeza de que as coisas sempre melhorariam era uma de suas características. Foi assim quando pequeno, nos grotões; foi assim quando veio para a capital, morar de favor; foi assim quando comprou, num matagal, um teto de palha sustentado por quatro estacas, que hoje é uma casa. Não possuía todo o dinheiro por ocasião da compra e nem sabia como consegui-lo. Mesmo seu pai tendo a quantia, não deu-lhe vintém, proferindo outra frase que jamais esqueceu: “Meu filho, compra casa quem pode.” Pagou-a antecipado. Não sabe como, mas a esperança sempre o acompanhou. Em suas palavras: “Deus me deu essa casa”.

Meu pai, um homem simples. A grandiosidade nunca foi para ele convite a ser aceito. Lugares finos, roupas chiques, pratos sofisticados. Não fazia questão deles, e por vezes os abominava. Adorava estar à vontade, com sandálias no lugar de sapatos (cuidava em tirá-las ao entrar nas residências em que trabalhava), deitado em sua rede no quintal de casa. Apreciava as comidas simples. Amava as frutas, recém-tiradas do pé. Amava a natureza: as sombras das árvores, o ar puro, banhar-se nas águas, os cantos dos pássaros. Amava as feiras, onde via os preços das coisas e sempre conseguia um preço menor, quando as comprava. Amava conversar com pessoas, as mais diferentes, de qualquer classe e posição social. Era comum vê-lo sentado em frente a nossa casa, dialogando com as pessoas que passavam; cercado de crianças, ensinando-lhes coisas, inclusive a falar. Sobre presentes, dizia ele: “Pode ser um sabonete, mas que seja de coração.” Formalidades, dispensava. Preferia calor humano, gracejos e risos.

Meu pai, um homem digno. “Se depois que eu morrer alguém vier cobrar dívida minha pode chamar a polícia que é ladrão”, dizia. Meu pai foi um homem pobre, de cor, analfabeto, mas seu exemplo de justiça e dignidade é o maior que já tive. No trabalho, sempre cobrou valor justo pelos serviços. Era alguém em quem seus clientes podiam entregar qualquer quantia em dinheiro para comprar material. Odiava inveja. As únicas coisas que almejava eram aquelas que podia conseguir honestamente. “O que é certo é certo.” Apesar de um simples encanador, não admitia que o destratassem: “Eu sou um profissional”. Levou toda a vida para realizar seus sonhos: casa, filhos formados.

Meu pai, um homem de família. De tudo o que meu pai conquistou em vida, a família foi seu bem mais precioso. Aprazia-lhe os momentos com os seus. Amava a mulher com quem construiu casa e constituiu família. Arrisco que dispensava ainda mais amor à esposa que aos filhos. Orgulhava-se dela, por ser igualmente batalhadora, ter a mesma origem e falarem a mesma língua. Amou-a, e demonstrou isso até os últimos instantes. Orgulhava-se pelo fato de os filhos não terem seguido sua sina. Cansei de ouvir: “Estude para ser alguém na vida.” Tendo os três filhos aprovados no vestibular, apressou-se em espalhar a notícia entre seus clientes-amigos. “Outra coisa não, mas filho eu soube criar.” Nunca deixou despercebido qualquer indício de que algo em casa estava errado. Se via alguma coisa de mal, cortava-a pela raiz. Também amava os outros familiares: perdoou seu pai que nunca o deixou estudar e ajudou os irmãos que possuíam menos que ele.

Meu pai, um lutador, um forte. Acostumei-me a vê-lo transpor obstáculos, ficar são das poucas doenças que o acometiam. Fracassou apenas na tentativa de aprender as letras, já passada há muito a idade. O cansaço do dia de trabalho não permitia. O que logrou desse esforço foi conhecer a mulher com quem ficou até o fim.

A última vez que meu pai adoeceu imaginei que fosse como das outras, que logo ficaria bom. Pensei que ainda viveria muito tempo, mas não. Seu quadro agravou-se tão depressa que o perdemos em pouco mais de uma semana. Levei algum tempo para aceitar o fato como verdade, e muitas foram as vezes que sonhei com ele. Em uma delas me deu um abraço tão forte que me faltou o ar. Não pôde ir a minha formatura, nem ouvir o discurso em que o homenageei. Indignava-se com a doença que o consumia: “Eu não era sadio?” Ainda hoje doi-me ao recordar sua expressão ao me fazer essa pergunta. Sentiu que seu momento chegava e, como fora até aquele instante em toda sua vida, enfrentou a morte com bravura. Seu medo de sofrer em cima de uma cama, mobilizando pessoas para cuidar dele, não se realizou. Não reclamou, não chorou. Disse que alcançou seus objetivos, seus sonhos, e que poderia partir em paz. E assim foi.

Meu pai, meu herói. Vão-me perguntar se não errou. Claro que sim, faz parte da condição humana. Mas dentre todas as pessoas que conheci – e muitas eram brilhantes –, nenhuma outra acertou tanto em tantas áreas distintas. Tinha convicções, mas as mudava quando percebia erradas. Já eu, não sei se fui o filho que ele merecia. O mundo que ele queria para mim era tão diferente do seu. Na vontade de que eu fosse melhor que ele, terminou por nos afastar um tanto: assuntos diferentes, interessses diferentes, ideias diferentes. Espero ter amenizado esse sentimento em pelo menos uma situação. Houve uma vez que um colega meu da faculdade disse no apartamento onde morava que estudava com o filho do encanador, e, envergonhado, que seu desempenho era superior ao daqueles criados com todo o conforto. E qual não foi o espanto do edifício inteiro ao saber disso. Parabenizaram-no por isso. Espero que tenha sentido orgulho por mim, pois muito me orgulho dele. Nas vezes que passei da meia-noite estudando, era em seu exemplo que buscava determinação, ou, como ele dizia, “força de vontade”. 

Com sua partida, alguns perderam um conselheiro; outros, um amigo; outros, um excelente profissional. Eu perdi um ídolo. Não sei se terei toda a virtude que meu pai teve, mas metade dela já me bastaria. Não se vê mais aquele homem que caminhava a pé pelos bairros da Jatiúca, Ponta Verde e Pajuçara, com sua bolsa de ferramentas. Não há mais ninguém à porta de casa para me receber. Os vizinhos atestam que parte da rua morreu junto com ele. Seu maior legado para mim foi o enorme caráter que demonstrou em vida. Provavelmente não seria o que sou hoje sem ele, e por isso deitei em seu ataúde meu canudo de bacharel. E findo aqui minha homenagem a ele.

Meu pai,
um forte abraço.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Feminismo

Algumas décadas atrás um grupo de mulheres organizaram uma série de protestos para demonstrar que estavam insatisfeitas com o papel que a sociedade lhes dispensava, sendo o símbolo maior dessa revolta a queima de sutiãs. Naquela época não havia escolha: o destino certo era o casamento (em muitos lugares, arranjado pelos pais) e a eterna vida de dona-de-casa, onde era sua obrigação cuidar do lar e dos filhos e esperar o marido chegar à noite.

Esse movimento ficou conhecido como Feminismo e abriu as portas para que a mulher tivesse poder de escolha sobre seu destino. Um reflexo de que antes ela não dispunha dessa liberdade é o fato de não haver muitas mulheres conhecidas na história do mundo (em todas as áreas: ciências, artes, filosofia, etc.), pois era-lhes vetada a participação e ingresso em universidades e atividades culturais-artísticas em geral. Muitas coisas hoje consideradas normais eram antes vistas com maus olhos pela sociedade. Um claro exemplo da situação da mulher nos tempos idos é a história de Joanna D'arc: a francesa teve participação heroica na Guerra dos Cem Anos, mas foi condenada à fogueira acusada de bruxaria.

O Feminismo pôs abaixo muitas das barreiras que impediam as mulheres de seguirem seus próprios caminhos, outorgando-lhes o direito de decidir o rumo de suas vidas. Hoje podemos ver mulheres em profissões anteriormente exclusiva de homens, como engenharia, por exemplo. Embora haja lutas a ganhar, muito já foi feito em favor delas.

No entanto, uma surpresa surgiu: mesmo com o poder de esolha, muitas mulheres preferiram seguir o mesmo rumo de antes – cuidar da casa e dos filhos. A diferença é o fato de não terem sido obrigadas a isso. Decidiram por sua própria vontade. Isso nos leva a uma conclusão: o papel de dona de casa nunca foi abjeto em si, mas sim a “predestinação” a que as mulheres estavam submissas. Naquele momento, era preciso combater o sistema atacando-o em seu símbolo-maior: o lar. Sendo assim, milhares partiram para o mercado de trabalho, negando a ocupação doméstica de que eram incumbidas por natureza. Romper era preciso.

Mas semelhante a uma superfície líquida que a princípio se agita ao receber uma gota que cai, mas se acalma com o tempo, assim as mulheres foram se acomodando na sociedade redesenhada por suas lutas. E não são poucas as que preferem abrir mão de uma carreira profissional para dedicarem-se à atividade doméstica. O Feminismo teve seu papel e sua importância inegável na história, mas ainda há hoje as que são adeptas ferrenhas das armas que eram úteis anos atrás, mas não hoje. O princípio da luta não é igualar os sexos, mas destacar os direitos devidos ao público feminino. Uma mulher de calça naquela época era um símbolo da luta, mas hoje frequentemente é um artigo de sensualidade – embora os homens ainda prefiram as saias. Hoje as mulheres entendem que devem mais do que nunca ser femininas, provando que podem valer-se de seus direitos sem abrir mão da natureza de seu gênero.

Talvez hoje a maior luta seja interna. Muitas mulheres aceitam tacitamente as jornadas de trabalho, sem lutar por incluir o companheiro nas atividades domésticas e cuidado com os filhos. Há ainda as que não incultem nos filhos homens suas obrigações dentro de casa, criando uma pessoa que no futuro achará estranho sua companheira querer compartilhar com ele as obrigações de casa.

O Feminismo abriu portas. Cabe agora às mulheres correr por uma delas e tentar ser feliz com suas escolhas.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Escolas

Há uma corrente ideológica que defende uma sociedade sem escolas. Concordo. Concordo que as escolas como existem atualmente sejam banidas. Elas são inúteis. A única função dessa escola que aí está é ensinar o aluno a ler e escrever. Não me refiro à atividade intelectual de compreender um texto e produzir discursos. Refiro-me à capacidade motora de juntar as letras e pronunciá-las ou colocá-las no papel. Fora isso, a escola atual não serve para nada.

O principal fator do fracasso da escola são os professores. Na sociedade moderna, a profissão de mestre sofre de discriminação e total descrédito. Ser professor é a saída para aqueles que não sabem para onde ir. Apenas aqueles vestibulandos que querem tão somente ingressar na universidade, livres de qualquer interesse, escolhem cursos de licenciatura. São pouco concorridos e de fácil aprovação. Disciplinas que são cobradas nas modalidades bacharelado do mesmo curso são suprimidas ou vistas sem qualquer profundidade. Quando se formam, os caminhos possíveis são: se bons alunos, vão trabalhar lecionando em escolas particulares, onde tem de submeter-se ao método da instituição, ou seja, não tem muita liberdade de praticar coisas novas; se maus alunos, vão trabalhar em qualquer outra profissão ou, pior, serão professores da rede pública de ensino.

Ora, o que esperar de um professor que, enquanto aluno, desprezava seus mestres, cabulava aulas, não dava valor à atividade de ensino? Como acreditar que uma pessoa assim formada queira fazer alguma diferença na área de ensino? Ele apenas seguirá a dormência dos atuais professores, repetindo técnicas centenárias. Reflexo disso é o fato de, mesmo em grandes e “modernas” escolas, o professor ainda utilizar a lousa (às vezes até com giz!) para copiar o assunto, enquanto os alunos o copiam em seus cadernos. Existe maior perda de tempo do que essa?
  
Outros que não vem ajudando muito são os egressos dos cursos de pedagogia. Em vez de utilizarem as técnicas e métodos estudados durante os anos de curso, apenas dedicam-se a atividades burocráticas nas escolas em que trabalham. Com pouco conhecimento de causa (não dominam o assunto que ensinam), são os responsáveis pelos primeiros aprendizados das crianças. Deveriam dedicar-se a verificar a eficácia das aulas e se os alunos estão realmente aprendendo o assunto.

Com relação ao quesito tecnologia, muitos são os que depositam nos meios eletrônicos o trunfo para um bom aprendizado. Reconheço que a inovação tecnológica é de um apoio excepcional tanto para o professor quanto para o aluno, mas definitivamente não é o principal fator de sucesso. Quem pensar assim deve estar pronto para justificar qual a razão do sucesso dos estudantes de outrora, em tempos em que  não havia computadores e Internet. A fórmula na verdade é bem simples: um professor que domina o assunto e consegue transmiti-lo aos alunos (dominar é importante, pois permite que o docente aborde o problema de várias maneiras, consiga dirimir todas as dúvidas, pensar à frente e mostrar a realidade de uso do conhecimento) e alunos que estudem. Para esse último item é necessário que os alunos sejam estimulados, não através de gorjetas, mas mostrando-lhes que o estudo – ao menos no mundo contemporâneo – é essencial em nossas vidas. O aluno deve ter seu conhecimento verificado através de aplicações práticas, como aulas por eles ministradas (por exemplo, dando-lhes a incumbência de ensinar um outro grupo) e provas racionais – são ridículas as que exigem que se decorem idiotices, como a tabela periódica. Afinal, na vida real, quando alguém precisa de algo desses, a consulta sempre será permitida.

Também seria necessário revisar o conteúdo ensinado em sala de aula. É de fundamental importância um conhecimento, digamos, acadêmico de áreas diversas (afinal, como alguém pode escolher que caminho seguir se não conhece nenhum?), mas também há a necessidade de conhecimentos que sejam aplicáveis a sua vida imediatamente. É o caso de educação financeira e práticas de vida saudável (alimentação e atividade física). A escola deve, juntamente com seus pais, preparar o aluno para participar da sociedade em que vive. O que vemos atualmente é que, após formados, os ex-alunos dedicam-se a passar em algum concurso. Com esse intuito, começam a estudas coisas que foram vistas na escola, mas que não passaram de perda de tempo. Não a assimilaram porque não viam que faria diferença em suas vidas. Na busca de um emprego, encontram motivação para estudarem e aprenderem. Se é necessário que cheguem tão longe para enfim começarem a estudar, então sim, eu concordo em abolirmos as escolas.

sábado, 28 de abril de 2012

Timidez

Li há algum tempo uma reportagem que falava sobre timidez. Ela se referia à “vingança dos tímidos”, numa alusão ao fato de os tímidos serem normalmente perseguidos e desdenhados. Ora, mas quem disse que timidez é de todo mal? Ela, juntamente com dias de chuva e água natural (não-gelada), fazem parte de um grupo de coisas que as pessoas atacam como se fossem anomalias da Inquisição.

Devemos dizer que há dois tipos de timidez, basicamente. Uma é aguda, chegando a ser patológica. Essa merece ser avaliada para um possível tratamento, pois normalmente atrapalha o desempenho em funções normais da vida diária. Mas o segundo tipo é antes uma característica de algumas pessoas do que um defeito. Consiste na falta de capacidade de manifestar-se publicamente em determinadas situações ou na dificuldade de conversar com o sexo alheio. A melhor definição, ao menos para o primeiro caso, talvez fosse “reservados”.

À primeira vista, quando se fala de “falta de capacidade” nos vem logo à mente que isso é algo de ruim. Mas, antes de tirarmos conclusões precipitadas, devemos avaliar a situação. Na verdade, a pergunta que deve ser feita é: será que os extrovertidos são tão bons assim?

A habilidade em expressar-se está diretamente relacionada ao grau de segurança do falante. Se alguém tem desenvoltura para dançar em público, falar abrobrinhas ou caçoar de outras pessoas, é porque está seguro de que será aprovado pela audiência – ou pelo fato de desprezá-la ao máximo. Do mesmo modo, se alguém se sente à vontade para explanar um trabalho de pesquisa a um grande público, ali não impera a timidez. O temor de não ser aceito, o deslocamente social, é o que gera desconfiança, incerteza e timidez, influenciando o nível de “incapacidade” de se expressar perante outrem.

Tenho observado comportamentos ao longo de anos. O que percebi é que os extrovertidos dos anos escolares muitas vezes não conseguem se valer desse seu “dom”, falhando em desafios que, ao menos para eles, deveriam ser simples, como uma entrevista para admissão de emprego ou coisa parecida. Ali não é a zona de conforto deles, que desperdiçaram muito tempo apenas dedicando-se a entreter colegas em momentos de vadiagem. Ali são reis, mas em situações que realmente importam na vida, tornam-se cabisbaixos e impotentes como os tímidos que desprezavam.

Por outro lado, não são poucos os rotulados tímidos que facilmente enveredam pelos caminhos da ascensão e chegam a postos elevados em seus trabalhos. Isso se deve ao fato de, longe dos holofotes, utilizarem seu tempo para estudar e aprender com dedicação, o que lhes confere segurança na área em que decidem atuar. Essa segurança permite que obtenham sucesso quando for preciso expor suas habilidades. E até diminuir sua timidez com isso (existe ex-tímido, mas ex-extrovertido desconheço).

Há apenas uma arena onde os tímidos invariavelmente sofrem reveses. Esse é o campo do relacionamento amoroso. Na cultura em que hoje vivemos, ganha quem se expõe. A preferência feminina é pelos que falam em demasia – não importando muito o quê. Esse aspecto acua o tímido, pois não há como inferir o sucesso ou rejeição nesse quesito, uma vez que depende muito mais da outra parte. Não é como uma disciplina que se estuda, mas é antes um exercício de montagem realizado no escuro. O que as mulheres deveriam atentar, porém, é que os extrovertidos são dados a aventureiros, pois conquistam fácil o coração das moças e seguem colecionando paixões como trofeus em prateleiras. Já os tímidos, por serem normalmente mais sensíveis, valorizarão muito mais o relacionamento que lhes custou a exposição a um possível vexame. Constituem assim melhores amantes, oferecendo companheirismo e atenção em maior intensidade (algo que muitas mulheres só percebem como essencial após o primeiro divórcio).

Embora tímidos e extrovertidos nunca se entendam completamente, um pouco de empatia por parte de ambos é fundamental para que um aprenda com o outro a arte de tirar proveito de cada temperamento.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sugestão de filme




Título: À Procura da Felicidade (original em inglês: The Pursuit of Happiness)
Diretor: Gabriele Muccino
Elenco principal: Will Smith, Jaden Smith e Thandie Newton
Estúdio: Columbia Pictures
Ano: 2006





À Procura da Felicidade é um maravilhoso filme baseado na história real de Chris Gardner, um homem que conseguiu vencer as adversidades da vida e fazer fortuna. No filme, ele é interpretado por Will Smith (em atuação muito bem recebida pela crítica), e seu filho, Jaden Smith (Karate Kid), representa o filho de Gardner. No filme, Chris, casado e pai de um filho, realiza uma operação arriscada nos negócios: investe todo seu capital em máquinas portáteis de raio-x. O problema é que as máquinas não vendem como o esperado, e ele se afunda em dívidas. A mulher o abandona e ele escolhe ficar com seu filho, não importa o que aconteça. É quando ele fica sabendo de uma seleção para trabalhar em uma grande corretora.

Mesmo contra todas as possibilidades (ele vai à entrevista sujo de tinta porque no dia anterior fora preso por não ter saldado uma dívida, passou a noite na delegacia e foi de lá correndo para a entrevista), ele é aceito no programa de trainees. Ele quase desiste da vaga porque tem que cuidar agora sozinho de seu filho, mas é convencido por um de seus entrevistadores a participar da seleção. Sem dinheiro para pagar o aluguel, ele é despejado e passa a morar em alojamentos destinados a sem-tetos e, sem poder comprar comida, junta-se aos mendigos nas filas que entregam sopas aos necessitados. Passa a parte da manhã na corretora, enquanto o filho está na creche, e à tarde sai para tentar vender alguma de suas máquinas de raio-x portáteis. Ao final, é admitido como funcionário na corretora – vencendo todos os demais concorrentes.

O filme possui cenas antológicas, como a parte em que Chris recebe a ligação de um funcionário da corretora informando que deve ligar para sua secretária para marcar um horário, mas ele não possui uma caneta em casa funcionando, então tem que decorar o número e sair à rua para procurar um lugar para anotar, e a cena em que ele foge de um taxista porque não tem dinheiro para pagar a corrida. Há também aquela em que ele, mesmo sem acreditar muito no que está dizendo, aconselha seu filho a sempre correr atrás de seus sonhos, não importa o que os outros digam. Outra parte emocionante é quando ele recebe a notícia de que foi aceito na empresa e sai à rua, misturando-se à multidão, exultando de alegria. Mas provavelmente a cena mais marcante é a que ele não conegue vaga no alojamento comunitário e é obrigado a dormir com o filho dentro de um banheiro público.

Embora esse seja o tipo de filme que emociona muita gente, alguns pontos podem ser destacados que o distinguem de filmes em que o sucesso (ou felicidade, para usar o termo do filme) vem por dádiva do destino. Tudo o que o personagem consegue é à custa de esforço. Ele impressiona na entrevista por sua sinceridade. Enquanto muitos estão ali com o objetivo de impressionar os gerentes e diretores, ele representa ele mesmo e não esconde os motivos de ter chegado ali esbaforido e sujo de tinta. Aqui são demonstradas sinceridade e humildade. Durante o curso, ele realiza cálculos de otimização de tempo, como eliminando idas ao banheiro e para beber água a fim de contatar o maior número possível de clientes. Um destes clientes o convida para ir a sua casa e ver um jogo com ele, e ali ele encontra espaço para fazer marketing de seu trabalho. É um recado para aqueles que acreditam no pensamento positivo e esquecem-se de agir positivamente a fim de conquistar seus sonhos.


Curiosidade: na última cena do filme, quando Will Smith passeia com o filho, passa um homem por eles, o qual é seguido pelo olhar curioso do ator. Esse homem é o Chris Gardner da vida real.



segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sabedoria dos antigos


É comum a medicina do ocidente, em suas pesquisas, confirmarem práticas descritas pelos médicos orientais há vários anos. Às vezes trata-se até de questões que eram tidas por lendas ou superstições. O engraçado é o posicionamento dos ocidentais nessas situações. Assumem como se estivessem validando o saber oriental, como se eles precisassem de um atestado de legalidade e validade dos pesquisadores do lado de cá do globo. Ora, seus métodos são muito mais antigos que os da sociedade ocidental. Esta que deveria pisar com cautela nos caminhos já percorridos por eles.

Na verdade, essa presunção não é característica apenas da classe médica atual. Ela é compartilhada por todo o corpo de cientistas e pesquisadores contemporâneos. Quando diante de qualquer feito de um povo antigo, como uma grande construção ou algo do tipo, correm a afirmar que aquele povo não tinha conhecimento e tecnologia para realizá-lo. Ora, será que é mais fácil afirmar isso do que agir como um cientista de verdade e procurar elucidar como foram capazes de executar determinada obra? Alguns chegam ao ponto de dar mais crédito a ideias como extraterrestres ou coisa do gênero do que acreditar que os antigos podiam realizar grandes façanhas. Isso é o que eu chamo de presunção.

Será que só agora há pessoas inteligentes? Será que só agora há engenharia? Será que só nos dias de hoje há grandes cientistas? Quando olho para trás o que vejo parece ser um movimento contrário. Parece que as pessoas de antes eram mais brilhantes. Um desavisado duvidaria de tudo sobre o que Aristóteles discorreu. Ele foi da biologia às artes, da política à literatura, da ciência à teologia. E que dizer de Diderot, editor da primeira enciclopédia? São nomes como Newton, Poincaré, Gauss, Tales, Da Vinci, entre outros, que me põem em dúvida se, ao contrário do que pensam nossos cientistas, não estamos em decadência intelectual. Na verdade, nem é preciso invocar os vultos da história. Basta observar as mães de hoje, incapazes de ministrar cuidados básicos aos filhos sem recorrerem a médicos e gurus. Ou pensar em como as parteiras realizavam todos os tipos de parto e, sem ultrassom nem nada, sabiam identificar a posição em que o feto se encontrava. Ou mesmo confirmar com os homens do campo a forma como adivinham a variação do tempo durante o ano.

Acredito que toda a sabedoria antiga tem ao menos um príncipio verdadeiro. Seria interessante se nossos intelectuais partissem dela para investigar fatos do mundo, em vez de procurar caminhos novos que desembocam nos destinos que todos já conhecemos.

sábado, 21 de abril de 2012

Denúncia

Há hiato em iate
Não há pobre em iate
Nem hiato em pobre
Rico não tem hiato
Mas tem iate
Há ricos em iates